CapÃtulo único — A casa que acordava antes do sol
Ainda estava escuro quando a chave girou na fechadura. O Theo conhecia aquele som de cor: era a mãe voltando, o casaco cheirando a rua fria e a madrugada inteira nas costas. Ele fingia que dormia, mas sorria por baixo do cobertor.
Dona Cida, como os vizinhos a chamavam, era gari. SaÃa de casa quando a cidade ainda pertencia só aos postes acesos e voltava quando o resto do mundo começava a acordar. Dizia, com orgulho, que conhecia cada esquina do bairro pelo barulho que a vassoura fazia nela.
Eram três naquela casa pequena: ela, o Theo, de dezoito anos, e o Bento, de cinco. Poucos cômodos, uma janela que dava pro varal e uma mesa que servia pra tudo — comer, desenhar, fazer plano.
O Bento era um menino de silêncios. Falava pouco, quase nada, e só deixava a mãe chegar bem perto. Mas com o Theo foi diferente. Foi o irmão mais velho quem descobriu, na base da paciência, a hora certa do desenho favorito, o copo que ele aceitava, a música que fazia aqueles olhinhos pesarem até dormir.
— Conta de novo — pedia o Bento, do jeito dele, puxando a manga da camisa do irmão.
E o Theo contava. A mesma história, toda noite, mudando só um detalhe pra ver o menino rir antes de fechar os olhos.
O Theo tinha um plano guardado no peito. Não era grande, dos de ficar rico. Era simples e teimoso: crescer, arrumar um trabalho e ficar do lado da mãe, pra dividir com ela o peso das madrugadas que ela carregou sozinha por eles.
Ele agradecia à Dona Cida do jeito antigo, sem palavra bonita. Agradecia estando por perto — esperando ela na porta, segurando o Bento no colo quando o sono chegava, guardando o melhor pedaço do dia pra contar quando ela voltava.
No fim da tarde, quando a casa enfim sossegava e o Bento pegava no sono, os dois irmãos ficavam ali, lado a lado, ouvindo a mãe cantarolar baixinho na cozinha. O Theo não parecia um rapaz preocupado com o amanhã. Parecia alguém que já tinha entendido, cedo, por quem valia a pena acordar antes do sol.
E essa é a história deles. De uma mãe que varre a cidade de madrugada, de um menino de poucas palavras e de um irmão mais velho que aprendeu, sem que ninguém ensinasse, que cuidar é o jeito mais bonito de amar.